Difference between revisions 238464 and 238626 on ptwikisource{{navegar |obra=[[Assim falou Zaratustra]] |autor=Friedrich Nietzsche |seção=Primeira parte |anterior=[[Assim falou Zaratustra/Das Alegrias e Paixões|Das Alegrias e Paixões]] |posterior=[[Assim falou Zaratustra/Ler e Escrever|Ler e Escrever]] |notas= }} “Vós, juizes e sacrificadores, não quereis matar enquanto a besta não haja inclinado a cabeça? Vede: o pálido delinqüente inclinou a cabeça; em seus olhos fala o supremo desprezo. “O meu Eu deve ser superado: o meu Eu é para mim o grande desprezo do homem”. Assim falam os olhos dele. O seu momento maior foi aquele em que a si mesmo se julgou. Não deixeis o sublime tornar ai cair na sua baixeza! Para aquele que tanto sofre por si, só há salvação na morte rápida. O vosso homicídio, oh! juizes! deve ser compaixão, e não vingança. E ao matar, tratai de justificar a própria vida. Não vos basta reconciliar-vos com aquele que matais. Seja a vossa tristeza amor ao Super-homem; assim justificais a vossa supervivência! Dizei “inimigo”, “malvado” não; dizei “enfermo” e não “infame”; dizei “insensato” e não “pecador”. E tu, vermelho juiz, se dissesses em voz alta o que fizeste já em pensamento, toda gente gritaria: Abaixo essa imundície e esse verme venenoso!... Uma coisa, porém, é o pensamento, outra a ação, outra a imagem da ação. A roda da causalidade não gira entre elas. Uma imagem fez empalidecer esse homem pálido. Ele estava à altura do seu ato quando o realizou, mas não suportou a sua imagem depois de o ter consumado. Sempre se viu só, como o autor de um ato. Eu chamo isso loucura; a exceção converteu-se para ele em regra. O golpe que deu fascina-lhe a pobre razão: a isso chamo eu a loucura depois do ato. Ouvi, Juizes! Ainda há outra loucura: a loucura antes do ato. Ah! não penetrastes profundamente nessa alma. O juiz vermelho fala assim: “Por que foi que este criminoso matou? Queria roubar”. Mas eu vos digo: a sua alma queria sangue e não o roubo; tinha sede do gozo da faca! A sua pobre razão, porém, não compreendia essa loucura e decidiu-o. “Que importa o sangue? — disse ela. — Nem ao menos desejas roubar ao mesmo tempo? Não te desejas vingar?” E atendeu a sua pobre razão, cuja linguagem pesava sobre ele como chumbo; então roubou ao assassinar. Não se queria envergonhar da sua loucura. E agora pesa sobre ele o chumbo do seu crime; mas a sua pobre razão está tão paralisada, tão torpe!... Se ao menos pudesse sacudir a cabeça, a sua carga cairia, mas, quem sacudirá esta cabeça? Quem é este homem? Um conjunto de enfermidades que, pelo espírito, abrem caminho para fora do mundo, onde querem apanhar a sua presa. Que é este homem? Um magote de serpentes ferozes que se não podem entender; por isso cada qual vai por seu lado procurar presa pelo mundo. Vede este pobre corpo! O que ele sofreu e o que desejou, a alma o interpretou a seu favor; interpretou-o como gozo e desejo sanguinário do prazer da faca. O que enferma agora, vê-se dominado pelo mal, que é mal agora; quer fazer sofrer com o que o faz sofrer; mas houve outros tempos e outros males e bens. Dantes era um mal a dúvida e a vontade própria. Então o enfermo torna-se hereje e bruxa; como hereje e bruxa padecia e fazia padecer. Mas isto não quer entrar nos vossos ouvidos; prejudica, dizeis, os vossos bons; mas que me importam a mim os vossos bons? Nos vossos bons há muitas coisas que me repugnam, e de certo não é o seu mal. Quereria que tivessem uma loucura que os levasse a sucumbir, como esse pálido criminoso. Quereria que a sua loucura se chamasse verdade, ou fidelidade, ou justiça; mas têm virtude para viver em mísera conformidade. Eu sou um anteparo na margem do rio; aquele que puder prender-me, que o faça. Saiba-se, porém, que não sou vossa muleta”. Assim falava Zaratustra. [[categoria:Assim falou Zaratustra|107]] [[es:Zaratustra 7:Del criminal pálido]] [[fr:Ainsi parlait Zarathoustra/Première partie/Du pâle criminel]]⏎ [[hy:Այսպէս խօսեց Զրադաշտը/Առաջին մաս/Դժգոյն ոճրագործի մասին]] All content in the above text box is licensed under the Creative Commons Attribution-ShareAlike license Version 4 and was originally sourced from https://pt.wikisource.org/w/index.php?diff=prev&oldid=238626.
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